Programação

  • AULA 1 - 6 DE MARÇO

    Apresentação do programa da disciplina, dos métodos de avaliação, com calendário de aulas e bibliografia.


    Conteúdos gerais da disciplina - os três tópicos abaixo serão abordados a partir do tema maior da constituição da tradição clássica da arte.

    1) Introdução à disciplina de História da Arte

    2) Arte Antiga

    3) Arte Medieval


    OBS: sempre que possível, faremos relações com outras culturas visuais e outros territórios, mas nosso foco principal será tratar da tradição clássica da arte e sua relação com a história da arte e a própria noção de arte.


    Para apontarmos para a necessidade que ainda hoje temos, num país como o Brasil, de estudarmos as culturas visuais da Antiguidade e da Idade Média, apresentei rapidamente as categorias de colecionismo do primeiro museu brasileiro, o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no que diz respeito às suas coleções arqueológicas.

    Em anexo, a apresentação resumida em PDF.


  • AULA 2 - 13 DE MARÇO

    Introdução à disciplina de história da arte: Historiografia consolidada e constituição da tradição clássica e a crise da disciplina

    Nesta aula, apresentamos um panorama geral da evolução da história da arte até sua conformação como disciplina universitária, no século XIX. Assinalamos que embora existam comentários e relatos sobre a arte e os artistas desde a Antiguidade (veja-se História natural, de Plínio, o Velho), um discurso ou narrativa autônomos sobre a arte só se configuram com a instauração do Renascimento, no século XV. Nesse sentido, o "texto fundador" da história da arte para a tradição dita ocidental é As vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, de Giorgio Vasari, originalmente publicado em 1550. Organizado no formato de biografias de artistas, Vasari sistematiza o primeiro relato sobre as atividades e as obras realizadas pelos artistas do Renascimento florentino, ao mesmo tempo em que os coloca como herdeiros imediatos da antiguidade clássica (greco-romana) e propõe a formulação da noção de estilo

    Além das Vidas, Vasari foi responsável por criar a Academia das Artes do Desenho (pintura, escultura e arquitetura), de Florença, no mesmo período, bem como projetar o edifício dos Uffizi: inicialmente, concebido para acomodar os escritórios da administração pública de Florença, ele também serviu para abrigar a coleção de estatuária antiga dos Medici, em sua Tribuna, uma galeria no formato de um octógono, na qual esta coleção passa a ser exibida.

    Esse modelo de narrativa (as Vidas), bem como o modelo de ensinamento acadêmico proposto por Vasari serão disseminados por toda a Europa, e outras biografias de artistas e academias surgirão nos século seguintes, na França, na Inglaterra, na Espanha, na Alemanha, etc.

    Podemos dizer que haverá um novo "salto" nessa narrativa da arte, ou naquilo que chamamos de história da arte, com o advento do Iluminismo e o surgimento da estética e do pensamento científico. A estética, pensada inicialmente como um campo da filosofia voltado a discutir a natureza do belo, é fundamental para a reformulação das teorias artísticas e para o conceito de arte. Ao mesmo tempo, o pensamento científico/experimental será importante para dar à disciplina de história da arte, ao longo do século XIX, seu caráter de "ciência da arte".

    Na segunda parte da aula, discutimos mais a fundo a formação da Escola de Viena de História da Arte - a primeira em seu gênero criada no âmbito da Universidade. Procuramos entender o contexto de sua formação no processo de modernização do Império Austro-Húngaro, na afirmação de seus territórios multiculturais e multilíngue, e durante a grande reforma da cidade de Viena e da realização da Exposição Universal de Viena. Com a leitura do texto de Matthew Rampley, vimos como os historiadores da arte da primeira geração da Escola de Viena tiveram um papel fundamental, não só na consolidação da disciplina como uma disciplina histórico-humanista (a importância da averiguação e busca das fontes documentais em relação ao objeto artístico), mas também na construção da imagem modernizadora do Império Austro-Húngaro. Nessa construção, estabelece-se uma relação direta entre o legado da antiguidade clássica - aqui revisitada para abarcar o período de expansão do Império Romano (e a reabilitação da arte deste período) - e a cultura germânica dentro desse território. De qualquer modo, a Escola de Viena tem um papel fundamental na consolidação da disciplina como uma disciplina de caráter científico, e abre novas frentes de pesquisa e de temas de estudo, bem como um diálogo interdisciplinar com outras disciplinas, dentre elas, a psicologia, teorias da percepção e a antropologia. Assim, os historiadores da arte das próximas gerações começam a pensar numa "ciência da imagem". 

    Vimos, por fim, as novas teorias e métodos da história da arte que surgiram na primeira metade do século XX (a teoria da pura visibilidade e a ideia de uma evolução das formas artísticas; a iconologia, isto é, o estudo do significado das formas artísticas e sua relação com a tradição clássica da arte), e seu questionamento sobretudo a partir dos anos 1980, no momento do chamado "Pictorial turn". Aqui, a história da arte passada a "competir" com linhas de pesquisa como as de Estudos Visuais ou de Cultura Visual, em que a imagem não é algo apenas que diz respeito à arte, mas é um universo mais amplo de códigos visuais que circulam em outras esferas da cultura humana. 

    Para um resumo dessa evolução, veja-se o esquema em anexo.

    Indicações de leitura para esta aula (PDF EM ANEXO):

    Rampley, Matthew,« Art History and the Politics of Empire : Rethinking the Vienna School », The Art Bulletin, vol. 91, no. 4 (Dezembro 2009), pp. 446-462.


    Indicação de leitura mais geral/básica sobre a disciplina de história da arte e sua história:

    BAZIN, Germain. História da História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1989 [1a. edição inglesa, 1986].




  • AULA 3 - 20 DE MARÇO

    Introdução à arte na Antiguidade: cultura greco-romana

    Professora convidada: Profa. Maria Isabel Flemming (MAE USP), sobre a cerâmica e a metalurgia na Grécia e na Roma antigas

    Introdução à arte da antiguidade, com um pequeno panorama da Pré-história. Elaboração de instrumentos com pedra lascada e pintura mural. Cultura visual brasileira dos sambaquis. Vênus de Willendorf é apresentada como exemplo de arte pré-histórica que mostra a representação da figura humana feminina.

    O conceito de civilização: Para a historiografia tradicional, o conceito de civilização está na evolução com sentido da simplicidade à complexidade. Atualmente, a ideia é mais ampla e contempla outras características. Para uma discussão contemporânea, ver artigo de Kwame Anthony Appiah: https://www.theguardian.com/world/2016/nov/09/western-civilisation-appiah-reith-lecture

    Bases da tradição artística ocidental: Egito, Grécia e Roma.    

    Arte na Grécia Antiga.Períodos de desenvolvimento da arte grega: Arte geométrica (IX a VIII a.C), arte arcaica (600 a 480 a.C), arte clássica (480 a 323 a.C) e arte helênica (323 a 31 a.C). Ordens arquitetônicas gregas: Dórica, Jônica e Coríntia.

    Aula de Maria Isabel Fleming sobre Cerâmica grega e Arqueologia. Vasos gregos encontrados em vastas quantidades em sítios arqueológicos. Objetos básicos e comuns na época clássica, apreciados esteticamente pelo colecionismo moderno, caracterizando-os como artísticos, transformando-os em objetos supervalorizados e descontextualizados de seu tempo. Mas cerâmica tem um papel fundamental para mapear a circulação e a troca entre os diferentes povos do Mediterrâneo, além de serem suportes de narrativas mitológicas e outros eventos da Antiguidade, bem como revelam as técnicas e materiais conhecidos no período.


    Indicações de leitura para esta aula (PDF em anexo):

    SPARKES, Brian, A. The Red and the Black. Studies in Greek Pottery. London, New York,
    Routledge, 1996: 1-2. [versão em português feita pela profa. Maria Isabel Flemming]


    Indicações de leitura adicional:

    BELL, Julian. Uma nova história da arte, caps. 2 e 3 (PDF em anexo junto ao programa da disciplina)


  • AULA 4 - 27 DE MARÇO

    A constituição da tradição clássica (2a. parte): Egito e Roma

    Nesta aula foram abordadas duas civilizações extremamente importantes para o discurso sobre a tradição artística do ocidente: Egito e Roma. As duas sociedades foram apresentadas com suas particularidades no campo das artes e um breve contexto histórico com uma periodização tradicionalmente estabelecida sobre o desenvolvimento delas.

    Um resumo da discussão sobre a cultura egípcia abrange desde a importância desse povo na invenção do papel até a construção das grandes pirâmides, a partir de estudos que visavam uma maior conservação dos corpos mumificados. Outro episódio significativo para esse período consiste na alteração momentânea da rigidez do estilo de representação egípcio durante o reinado do faraó Akhenaton. Em síntese, a cultura da morte acabou por dominar a imaginação do mundo acerca dos egípcios, no entanto muito mais foi produzido fora desse contexto.

    Os romanos possuem extensas raízes nos povos etruscos, gregos e itálicos. Do contato com os gregos, através das cidades-estado da Magna Grécia, chegaram até os dias atuais inúmeras cópias de esculturas gregas originais bronze, copiadas em mármore pelos romanos. No entanto, a estatuária englobava, predominantemente, uma representação cívica relativa à vida publica. Roma foi a cultura responsável pela criação de inovações arquitetônicas a partir da utilização do tijolo e da argamassa: o arco e a cúpula. Esse povo essencialmente militar teve suas principais obras datadas do período imperial, destacando-se a produção dos mosaicos e afrescos de Pompéia, representações artísticas que apresentavam vestígios da vida, cultura e cotidiano dos romanos. Esta típica cidade de província da Roma Imperial também preservou a cultura do grafite e da pichação, de conteúdo político e de escárnio, bem como de propaganda de negócios. Por fim, foi discutida a presença das statue parlanti, obras usadas desde a antiguidade como suporte para manifestações públicas e políticas, que continuam exercendo sua função de “estátuas falantes” na atualidade.

    OBSERVAÇÃO: importante atentar para o padrão de representação da figura humana, entre Egito, Grécia e Roma, aonde a historiografia clássica viu uma continuidade – ou uma relação de transferência de uma cultura para outra. Também devemos atentar para um princípio fundamental para essas culturas visuais, que é a relação que elas estabelecem entre o padrão/modelo a ser utilizado nas artes (pintura e escultura) e a observação da natureza.

    Indicações de leitura: 

    Pedro Paulo Funari, capítulo IV in: A vida quotidiana na Roma antiga. São Paulo: Annablume, 2003, pp. 67-94. 


  • AULA 5 - 3 DE ABRIL

    A cidade antiga e a Linguagem clássica da arquitetura:

    Discutimos em grupos as seguintes questões sobre os assuntos tratados no texto “A cidade antiga” de Fustel de Coulange:

        1. O que parece ser específico na formação da cidade na Antiguidade, que difere da cidade moderna/contemporânea?

        2. 2. Qual o papel da religião na formação da cidade antiga?

    As respostas dos alunos sobre as duas questões ressaltaram a importância da figura de um líder fundador; a fundação baseada em rituais; o planejamento prévio da construção da cidade; a importância dada à vida em comum; a importância da religião na organização do Estado e da forma de governo e das leis. Outra diferença trazida para a discussão é que o cidadão da pólis passava por rituais ao longo da vida para torná-lo parte da família, da tribo e da cidade.

    A pólis grega foi um modelo para a cidade antiga no Ocidente; os conceitos de pólis (cidade organizada) e politikos (cidadãos da pólis) foram adaptados para a CIVITAS romana e a RES PUBLICA (responsabilidade sobre a vida em comum).

    No período arcaico, a partir do século 8 a.C. houve a expansão de várias pólis no Mediterrâneo, junto com a adoção de forma de escrita alfabética. Esse período é referido como “Grécia das cidades”, ou Magna Grécia. Dessa época datam os principais sítios arqueológicos das cidades-estado que conhecemos hoje: Athenas, Esparta, Corinto, Siracusa, Agrigento e Torento.

        A cidade grega se dividia em ásty (área urbana, centro cívico) e khóra (território das atividades agrícolas). Também se dividia entre o espaço dos deuses (témeno, dentro da ásty e em templos rurais), dos mortos (necrópole) e dos vivos (ásty).

        O templo era o emblema da pólis, foi influenciado pelos egípcios (na técnica construtiva e no princípio de monumentalidade) e pelo Oriente próximo (com a concepção tripartite de templo, altar e imagem de culto). Seguia a mesma planta (área fechada, colunata aberta e hecatômpedo [medida de cem pés]) e determinadas regras na construção de novos templos. Essas regras eram as três ordens de arquitetura: dórica, jônica e coríntia. Posteriormente, os romanos adicionam duas novas ordens: toscana e compósita, que podem ser vistas na fachada do Coliseu.

        Em Roma foram feitas importantes inovações nas cidades, como o transporte de água e encanamento (com os aquedutos e fontes), sistema viário ligando várias cidades do império e na arquitetura, a partir de inovações técnicas, surgiram o arco e a cúpula.



  • AULA 6 - 10 DE ABRIL

    Teoria da arte na Antiguidade (Grécia Antiga) e a disciplina de história da arte

    Divisão da aula em duas partes. A primeira, sobre a teoria e o estatuto da arte para os gregos antigos, com referência no texto de Anne Cauquelin, “Teorias da Arte”. A segunda, a respeito da retomada da história da arte como disciplina acadêmica, orientada no capítulo 1 do livro “A História da Arte Como História da Cidade”, de Giulio Carlo Argan. Discussão a respeito de como as ideias de Platão e Aristóteles sobre a arte são importantes para a constituição da disciplina.

    Proposta de exercício em grupo, constituído de 3 questões acerca de trechos de “Poética”, de Aristóteles, e “A República”, de Platão. Imitação (mimese) como aspecto fundamental da pintura, segundo os autores. Não há discurso autônomo dedicado exclusivamente à arte na antiguidade. Pintura, escultura e arquitetura são classificadas como “Techné”, ou Artes Mecânicas, isto é, entendidas apenas como um trabalho/habilidade manual, mas que não produzem conhecimento. Filosofia, matemática, geometria e poesia, caracterizadas como Artes Liberais. Estas, sim, geradoras de conhecimento. Para Platão, o belo é a expressão máxima do bem e da verdade. Manifestação do divino. Inerente e exclusivo à natureza. A ideia (eido), criação divina se materializa na natureza através do belo, das formas. Não existe o conceito de “criação” humana, na época.  Para Platão, a imitação é a enganação, a fuga da verdade. Para Aristóteles, a imitação é uma ferramenta de conhecimento, de apreensão do mundo.

        “A História da Arte” (cap.1 de História da arte como história da cidade), de Argan, publicado em 1969. Conjuntura da Guerra Fria. Crise das disciplinas humanísticas, das utopias, da história, e consequentemente,  crise da história da arte. Arte como conceito forjado na tradição clássica. História da arte é disciplina humanista, com origem no renascimento. O autor discute a evolução da disciplina da história da arte e os diferentes focos tomados por seus estudiosos. Uma das mais influentes teorias para a disciplina na primeira metade do século 19, é a Teoria da pura visibilidade (Konrad Fiedler), que embasa a ideia de uma História das formas. Embora Argan reconheça a sua importância, na afirmação das especificidades de análise do objeto artístico, ele atenta, no momento em que escreve seu texto, para aquilo que ele considera um mau uso dessa história das formas, no sentido de uma história formalista da arte, que negligenciou a dimensão histórico-cultural do objeto artístico.

        Arte para Argan. Relação estreita entre arte e o emergente estado burguês. Novo conceito de arte necessariamente vinculado ao ambiente urbano. Arte é um trabalho. Origem comum entre artesão e artista. Para Argan, seria necessária uma revisão da disciplina de história da arte diante do problema de sua crise. Ele convoca para tanto dois autores, os historiadores da arte Erwin Panofsky e Lionello Venturi. Panofsky defende a história da arte como história da cultura e da cultura visual, que ele definiu como iconologia. Venturi defenda a ideia de uma história da arte como história crítica da arte, ou seja, que o exercício crítico seria inerente aos método histórico da disciplina.

        Situação da segunda metade do século 20, interpretada por Argan. Fim da “civilização humanista” pelo ciclo do progresso tecnológico. Arte só é admitida na esfera do consumo. Mundo cada vez mais voltado para objetos de valor. Problema da relação da história da arte com as novas ciências da informação, com a semiótica e a psicologia. No século 21, emergência dos estudos visuais. Ciência da imagem. Por fim, exercício de comparação entre as obras “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli, “As Moças de Avignon”, de Picasso, e “Easyfun Ethereal (Vênus)”, de Jeff Koons. O objetivo do exercício de análise dessas três obras foi no sentido de entender o que Argan define por “série” na metodologia histórica da disciplina.

    Indicações de leitura:

    Giulio Carlo Argan, "A História da Arte" (cap. 1) In: História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992, pp. 13-72 (VER PDF NA AULA 4)

    Anne Cauquelin, "Platão ou a origem do teórico para a arte" In: Teorias da arte. São Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. 27-35.


  • AULA 8 - 24 DE ABRIL

    1a. PROVA/ 1a. ENTREGA DO DIÁRIO DE BORDO

    • AULA 9 - 8 DE MAIO

      Introdução à cultura visual da Idade Média

      Professora convidada: Flavia Galli Tatsch (Departamento de História da Arte da UNIFESP)

      A aula foi dividida em duas partes. A primeira foi uma introdução à cultura medieval com a professora convidada Flavia Galli Tatsch, do Departamento de História da Arte da UNIFESP. A segunda, compreendeu uma devolutiva do resultado apresentado nas provas, diários de bordo e exercícios de aula.

      A palestra de Flavia Galli Tatsch (ver PPT em anexo) apresentou o surgimento da arte cristã como fruto de uma antiguidade paleocristã tardia que praticava seu culto em catacumbas e locais fechados. As pinturas em encáustica nos sarcófagos egípcios serviram, provavelmente, de modelo para as imagens do cristianismo.

      A arte cristã seria uma ressignificação das formas da Antiguidade, com o corpo ideal da Grécia, a individualidade do retrato de Roma e heranças da Pérsia e Mesopotâmia. Após o Édito de Milão, houve uma liberdade de culto que permitiu a expansão territorial e um mecenato imperial das construções e ornamentos  para a disseminação do cristianismo.

      A arte medieval foi patrocinada por uma elite que encomendava pinturas para a salvação das almas de seus mortos. O lento e gradual abandono da tradição clássica culminou no uso de um plano único, superfícies coloridas sem sombras, desmaterialização da forma e perspectiva baseada na importância das figuras retratadas. As imagens eram hieráticas com um olhar fixo além do espectador, representação em tronos, linhas determinantes e formas sem volumetria.

      Diversos elementos greco-romanos foram apropriados pela cultura paleocristã. Os filósofos foram transformados na figura do evangelista, Cristo substituiu o imperador romano nos clipeus (pequenos círculos inseridos na pintura), a orante responsável pela oração aos vivos, mortos e autoridades, foi transformada numa imagem de pregação contínua e, por fim, santos foram representados com trajes militares romanos.

      Os primeiros pensadores da Igreja não elaboraram nenhum tratado de arte, mas havia uma enorme importância da simetria, faces ovaladas e representações sem narrativa. O período da Idade Média compreende mil anos e uma diversidade enorme. A arte desse período não era considerada como arte e foi  tratada por muito tempo como menor ou sem qualidade, sobretudo a partir da visão que o Renascimento promoveu do período que o antecedeu.

      Houve uma separação entre a arte antropomorfizada e naturalista do período helênico, a ausência de imagens da cultura hebraica e as imagens signo e alegorias da doutrina cristã. A imagem produzida a partir da Bíblia permitia uma síntese das narrativas em uma única imagem facilmente interpretada pelos cristãos.

      Após a palestra foram discutidos elementos de avaliação, dicas e avisos sobre a prova. Foi feita uma pequena revisão para elucidar questões evidenciadas pela professora no exercício realizado durante a primeira visita ao MASP. Foram tiradas dúvidas sobre as correções das provas e ocorreu a devolução dos diários de bordos.



      Indicações de leitura para esta aula (PDF em anexo):

      Belting, Hans. Semelhança e presença: a história da imagem antes da era da arte. Rio de Janeiro, Ars Urbe, 2010. (Cap. 5)


    • AULA 10 - 15 DE MAIO

      A Arte medieval e o conceito de "Medioevo" 

      A Idade Média foi marcada pela expansão do cristianismo e entendida como um momento de ruptura com os valores da antiguidade greco-romana. Adverte-se que essa classificação se adequa apenas ao estudo da região do Mediterrâneo, não a outras regiões do mundo e mesmo da Europa.

          O conceito “MEDIOEVO” foi usado pela primeira vez em 1483 em escrito sobre a queda do Império Romano. O conceito surgiu no século XV em um contexto de ascensão de uma cultura humanista e o resgate de valores e da cultura dos antigos. Neste contexto, “Medieval” tem uma conotação negativa, pois caracteriza “a idade do meio”, como um vazio entre os cerca de mil anos entre os feitos dos antigos e a retomada de seus valores, buscando vincular a cultura italiana renascentista/moderna com a cultura da antiguidade romana. Assim o conceito de medieval tem um viés de auto-legitimação da cultura renascentista, pela qual a Idade Média passa a ser caracterizada como um período de ruptura com a Antiguidade e de degeneração das formas greco-romanas.

          O conceito de Arte forma-se a partir de conceitos provenientes do campo da filosofia (Belo, mímese) na Antiguidade e perpassa a filosofia do período medieval (com Plotino e São Tomás de Aquino), mas só ganha autonomia no ambiente humanista europeu do século XV.

          A datação mais comumente aceita de quando é a Idade Média é: que o início se dá na queda do Império Romano no ocidente quando morre o último imperador romano, em 476; e o fim com a queda de Constantinopla, atual Istambul, capital do Império Bizantino (ou Império Romano, no oriente) em 1453. Revisões historiográficas mais recentes propõem outras datas para marcar o período, como: o início da conquista de territórios europeus pelos árabes, século VII, e a formação do império de Carlos Magno (no território da França) cerca do ano 800; também se propõe o fim com o auge da peste negra em 1348 ou o com o advento da Reforma Protestante em 1517.

          A doutrina cristã formulou uma imagem da sociedade medieval como tripartida, entre clérigos, nobres e servos. A Igreja se institucionaliza nesse período e é detentora do conhecimento, inclusive as bibliotecas medievais ligadas à Igreja preservam muitos escritos da Antiguidade. Os teólogos cristãos justificam e legitimam a formação da sociedade estamentária comparando-a à santíssima trindade, a sociedade à semelhança divina. Os nobres nos feudos são soldados/cavaleiros hierarquizados por laços de suserania e vassalagem e os servos são camponeses ligados à terra. Ainda havia uma diversidade grande de manifestações populares laicas e pagãs.

          Na era medieval, outros povos no mundo não passavam pelos mesmos processos que caracterizavam a cultura europeia do período. Em sala retomamos os objetos que vimos no MASP, da China da Dinastia Tang (séculos VII a X) e do Brasil pré-colombiano (400 a 1350 ca.).

      A Idade Média é convencionalmente dividida em três períodos: a Alta/Primeira, a Plena e a Baixa Idade Média. Na primeira, há a construção de igrejas e basílicas paleocristãs dos séculos V a X. Na idade Plena há a produção das artes românica e gótica. Na Baixa Idade Média acontece um retorno à Antiguidade.

      Na Idade Média, foram produzidas artes com características próprias e em diferentes períodos e regiões como a arte bizantina, românica e gótica. A arte bizantina (do Império Bizantino) era caracterizada por mosaicos e ícones, suas igrejas tinham domo central. A arte românica (com influência do modo de construção romano, presente nos territórios de Itália e França) tinha afrescos e esculturas estilizadas e igrejas com arcos cilíndricos e paredes maciças. A arte gótica (presente nos territórios da França, Inglaterra e Alemanha) possuía vitrais coloridos e esculturas esguias e afiladas, suas catedrais possuíam arcos em ogiva e arcos botantes para sustentação.

          Fizemos em sala um exercício de comparação entre igrejas medievais e a arquitetura antiga.


      • AULA 11 - 22 DE MAIO

        O burgo e a fortificação medievais; questões de iconografia cristã


        Aula em duas partes, dois temas centrais. O burgo e a fortificação medievais no processo de transformação da cidade, na primeira parte. Na segunda parte, questões de iconografia cristã.

        A respeito da primeira parte. Desenvolvimento da estrutura urbana a partir da polis grega, compreendendo a cidadela como etapa do movimento. Desconstrução da ideia de que a vida rural é a principal no período medieval. Pulverização dos territórios e queda do Império Romano. Descentralização. Territórios menores se configuram em feudos, cujas trocas comerciais se dão sobretudo através dos pequenos mercados e feiras nos burgos. Conformação de cidades a partir de postos militares romanos, caso de Viena. Importância de cidades, como Veneza, que recebem peregrinos em direção à Terra Santa. Patrícios romanos se estabelecem como a nobreza medieval.

        A distribuição dos feudos se compreendia na relação de vassalagem e servidão, entre um senhor feudal, o suserano, e um vassalo. Soberania baseada na relação de proteção. Quanto mais rica a residência, mais próxima ao castelo se postava; quanto mais pobre, mais perto da muralha. Sistema jurídico romano se dissolve. Igreja católica se fortalece.

        Burgos medievais, também chamados de comunas, caracterizados por cidadelas fortificadas, protegidas por grandes muralhas. Essa estrutura se desenvolve a partir e nos arredores dos feudos, castelos fortificados, cercados por um fosso, com extensões em seus entornos. Grupos de camponeses, vassalos e comerciantes se organizam em conglomerados civis, mercantis e urbanos, residenciais, em pontos de rota entre feudos, ou nas periferias destes, e formam relações estruturais e construtivas de proteção mútua contra ataques externos, assim os burgos amuralhados. Comunas recebem os viajantes das cruzadas e assumem grande importância nesse contexto. Organização bancária nasce neste período de grandes deslocamentos. Figura do cavaleiro herói, construída e cultivada nos romances de cavalaria, é relevante para o imaginário da época.

        Exemplos de burgos e cidadelas medievais, como San Gimignano, burgo medieval da região da Toscana, século V, onde coexistem múltiplas famílias nobres e disputam a autoridade política. Câmaras comunais são análogas e similares às antigas ágoras ou aos senados. Exemplo de Carcassonne, no sul da França, que se origina em uma ocupação romana, no século I, e é fortificada após a transmissão de seu governo para os visigodos, no século V. Na cidadela francesa é visível uma distinção acentuada entre campo e cidade. O arcebispo pode exercitar, também, o papel de monarca, como é o caso em Salzburg, na atual Áustria.

        O castelo medieval se sistematiza no seguinte esquema: Pórtico, ponte levadiça, muralha externa, estábulos, donjon (masmorra/calabouço), barbacã (ou barbican, fortificação em portões ou pontes) e fosso.

        A respeito da segunda parte. Apresentação da iconografia fundamental cristã, de Cristo e da Virgem. Normatização das imagens icônicas, que possuem atributos reconhecíveis/descritivos para uma efetiva comunicação visual. Sobre apropriação e ressignificação dos retratos romanos para a sistematização dessas imagens. Mudança de significado e permanência das formas principais.

        Da grande extensão e variedade de ícones, são expostos os mais comuns e importantes, os seguintes. Cristo Pantocrator, o Cristo todo poderoso, o que tudo governa, que sustenta o mundo, onipotente, mais usado na Igreja Católica Ortodoxa (Bizâncio). Primeiro exemplar conhecido contido no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Cristo em Majestade, entronado, mais usado na Igreja Apostólica Romana.  Virgem Hodegetria, Virgem com o menino Jesus no colo, literalmente “aquela que aponta o caminho”, primeiro exemplar conhecido localiza-se no Monastério de Hodegon, em Constantinopla (atual Istambul). Virgem Panagia, a Virgem na posição da orante, com medalha no peito, com a imagem de Cristo menino (para dar a entender que ela concebeu Cristo).

        Afastamento da representação naturalista no decorrer do tempo frente ao problema da figuração religiosa. Simplificação da figura humana. Acentuação do aspecto gráfico das imagens religiosas e dos ícones. Cristo Pantocrator, século VI, do Mosteiro de Santa Catarina, feito em encáustica, tem forma e composição naturalista, volumetria, cenário representativo do mundo real. Cristo Pantocrator, século XII, de Hagia Sofia, em Istambul, feito em mosaico, já apresenta, posteriormente, configuração mais abstrata, simplificada, sintetizada, o fundo não figurativo, grafismo evidente e cores alegóricas, de modo a buscar representar o imaterial e o espaço divino e comunicá-los ao fiel.

        Religião Cristã em seu início era exercitada e formulada pelas classes dominantes, porém em segredo. Igrejas e matéria representante do divino disponíveis para essa camada alta. Efetivação das imagens católicas através dos formatos antigos clássicos.

        Apresentação de exemplos. Virgem Hodegetria, Igreja de Torcello, artistas gregos, século XII. Virgem Hodegetria e Cristo Depois da Crucificação, têmpera sobre madeira, século XII, Museu Bizantino, Kastoria (Grécia). Virgem com Menino Jesus e Dois Santos, século VI. Virgem Panagia, século XIII, Yaroslavl (Rússia). Virgem com Menino Jesus e Dois Santos, século VI, encáustica sobre madeira, Monastério de Santa Catarina, Monte Sinai.

        Discussão a partir de dúvida de aluna, a respeito do caráter narrativo dessas imagens, ou seja, da narrativa que se evidencia na forma e na estrutura, como em uma “história em quadrinhos”, com representação de sequência temporal, ou da narrativa que existe em plano ideal mas que é necessária e funciona na compreensão de tais imagens, que justamente evocam na mente do observador essa narrativa já conhecida. Diferente função e interpretação de mesmos objetos para sujeitos diferentes, de contextos religiosos e imaginários diferentes.

        Discussão a partir de dúvida de aluno concernente à simplificação das formas da arte iconográfica medieval e da aparente aproximação destas à produção plástica infantil, pela apresentação sintética das representações.




        Indicação de leitura:

        Guillaume Durand de Mende, "Representações da imagem de Cristo e das figuras bíblicas" IN: LICHTENSTEIN, Jacqueline (org.). A pintura. Textos essenciais. Vol. 5: Da imitação à expressão. São Paulo: Editora 34, 2004, pp. 30-38. [NO PDF EM ANEXO].


      • AULA 12 - 29 DE MAIO

        A arte medieval: Estilo gótico


        AULA SUSPENSA - CRISE DE ABASTECIMENTO DE COMBUSTÍVEL


        • AULA 14 - 12 DE JUNHO

          Revisão geral dos conteúdos da disciplina / 2a. E ÚLTIMA ENTREGA DO DIÁRIO DE BORDO