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Este curso introduz o estudo da escravidão no continente africano a partir de uma perspectiva de longa duração, enfrentando um tema historicamente cercado por mistificações. Desde o século XVI, navegantes, comerciantes, abolicionistas e, em certos momentos, até nacionalistas africanos recorreram a estereótipos raciais ou a convenções morais para encobrir os nexos profundos entre história e escravidão no continente, ora insistindo em sua suposta naturalidade, ora negando a sua própria existência.
Este curso propõe um caminho diferente. Ele examina cerca de cinco mil anos de práticas escravizantes na África, desde os primeiros registros históricos até os desafios contemporâneos do trabalho forçado e do tráfico humano nos séculos XX e XXI. Por meio de uma abordagem interdisciplinar (articulando fontes arqueológicas, linguísticas e textuais) os estudantes serão convidados a pensar a escravidão para além da noção de uma “instituição fixa”, típica de certas tradições sociológicas interessadas em identificar atributos recorrentes e, a partir deles, construir amplas narrativas comparativas.
Ao contrário, adotaremos uma perspectiva propriamente histórica, atenta às motivações, aos significados e às circunstâncias específicas em que indivíduos, grupos e classes, como camponeses, mercadores e lideranças políticas , inventaram e recorreram a múltiplas estratégias escravizantes. Isto é, analisaremos como agentes históricos redefiniram posições de poder, pertencimento e marginalidade por meio da escravização de outros, bem como as formas pelas quais as respostas desses sujeitos tensionaram, deslocaram e, por vezes, ressignificaram o próprio sentido de “escravidão” em sociedades africanas ao longo do tempo.
Inspirada na abordagem de um dos mais importantes historiadores do século XX, Joseph C. Miller, a disciplina propõe pensar a escravidão não como um estado social ou econômico dado a priori, mas como um problema histórico e epistemológico. O curso convida, assim, os estudantes a historicizar a própria categoria de “escravidão”, situando-a nas lógicas de mudança, contingência e agência que estruturam a experiência humana, e afastando-se de leituras teleológicas, moralizantes ou essencialistas que a reduzem a uma oposição simplificada entre vítimas e algozes.
Insistir que a escravidão possui uma longa duração não significa afirmar que ela se perde em tempos imemoriais, nem tampouco naturalizar sua persistência. Pelo contrário: lembrar sua longa historicidade é um modo de reconhecer que durabilidade não é destino. A escravidão jamais foi completamente abolida, mas, tal como antigas pandemias hoje controladas, pode produzir muito menos sofrimento no mundo.
Para explorar a escravidão ao longo de cinco milênios da história africana, este curso examinará práticas de escravização em contextos de militarização e formação de Estados, de constituição de vilas e de desenvolvimento de rotas comerciais, tanto internas ao continente quanto articuladas aos sistemas mercantis do Mediterrâneo, do Índico e do Atlântico, bem como suas continuidades e rupturas no período colonial. Ao final, a disciplina propõe uma reflexão crítica sobre a persistência da escravidão no período pós-colonial, à luz das metas da ONU e das lutas antiescravagistas globais contemporâneas no século XXI.
Sejam bem-vindas e bem-vindos.
- Docente: Marcos Abreu Leitão de Almeida