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 Mapa global de focos de incêndio elaborado pela NASA Earthdata com base nas detecções do espectrorradiômetro de imagem de resolução moderada (MODIS), instalado a bordo dos satélites Terra e Aqua, acumuladas ao longo de dez dias em fevereiro de 2023. Fonte: Abdul Latif Jameel® e https://worldview.earthdata.nasa.gov/

Apresentação 

A crise ecológica e climática contemporânea pode ser lida como um deslocamento histórico dos regimes de fogo. O fogo que conformou as paisagens da Terra e sustentou sociedades mais que humanas foi progressivamente suprimido por políticas coloniais de expulsão dos povos de seus territórios e de criminalização das práticas indígenas e tradicionais de manejo; enquanto o fogo termoindustrial, menos visível, se intensificava na queima de carvão, petróleo e gás que alimenta a geração de eletricidade, o transporte e a produção industrial. Expulso das paisagens, mas multiplicado nas engrenagens da modernidade, o fogo retorna agora do recalcado, figurado nos megaincêndios midiáticos. O fogo suprimido onde participa da reprodução da vida e intensificado onde desestabiliza o planeta. É esse paradoxo que torna o Piroceno um problema decisivo para a antropologia contemporânea.

A disciplina propõe uma abordagem antropológica do Piroceno, a “era do fogo” formulada por Stephen Pyne (2021), situando-a no debate sobre o Antropoceno e colocando-a em diálogo com a antropologia da ciência, da técnica e ambiental. O fogo será tomado como operador privilegiado para pensar a crise ecológica e climática contemporânea: tanto em sua manifestação visível nos megaincêndios de vegetação e suas infraestruturas de monitoramento, combate e dispositivos de prevenção e preparação, quanto em suas relações menos evidentes com sistemas agropastoris tradicionais, conhecimentos locais, políticas de conservação, manejo intercultural e restauração ecológica. Trata-se de examinar como diferentes fogos são produzidos, percebidos, classificados e governados, bem como os modos pelos quais distribuem riscos, responsabilidades, conhecimentos, competências e possibilidades de vida entre grupos sociais, espécies, espíritos e paisagens.

O Piroceno será compreendido como uma categoria heurística para interrogar a história da Terra sob o prisma do fogo e de suas transições píricas: dos fogos biofísicos vinculados à própria história da vida aos fogos antropogênicos que participam da formação de paisagens, chegando à combustão termoindustrial de carvão, petróleo e gás. Essa perspectiva permite analisar criticamente a modernidade, suas promessas de controle, seus dispositivos de mensuração, suas políticas de supressão e suas formas de produção de risco, assim como as tentativas - também modernas - de recompor relações entre fogo, vida e paisagem. Em vez de tratar os incêndios e queimadas como eventos exclusivamente naturais ou como efeitos indistintos da ação humana, o curso os abordará como fenômenos sociotécnicos e socioecológicos complexos, nos quais se entrelaçam processos biofísicos, histórias territoriais, tecnicidades, cosmologias e relações de poder. 

A questão, portanto, não consiste em decidir se o fogo é, em essência, benéfico ou nocivo, mas em perguntar: qual fogo, em que regime, em qual paisagem, vinculado a qual forma de vida e sob quais condições? Sem romantizar as chamas ou ignorar sua capacidade destrutiva, a disciplina examinará a aversão indiscriminada ao fogo como parte de um mal-estar moderno diante de forças ecológicas que exigem aprendizagem e heteronomia, para além de comando e controle. Diferentes maneiras de conhecer, usar, evitar, combater e cuidar do fogo serão tratadas como cosmotécnicas: modos operatórios de compor coletividades, meios, objetos e ecologias que produzem consequências cosmopolíticas distintas - inclusive, em escalas planetárias.

O percurso conceitual terá início com a passagem do Antropoceno ao Piroceno, a partir de Bruno Latour e Stephen Pyne. Em seguida, as contribuições de Gabriel Tarde permitirão discutir o alargamento do social e a multiplicidade das agências; Bruno Latour retorna para fornecer instrumentos para interrogar a constituição moderna, as relações entre fato e feito e a operação dos fatiches; Ilya Prigogine e Isabelle Stengers orientarão a reflexão sobre ciências complexas, instabilidade e irreversibilidade; e Anna Tsing permitirá pensar o design não intencional, as paisagens arruinadas e os mundos produzidos por coordenações precárias entre espécies. Esse percurso culminará no debate entre Gaia e PyroGaia, aproximando a reatividade planetária discutida por Latour das agências ígneas e cosmo(piro)políticas examinadas por Nigel Clark.

A frente etnográfica articulará monografias e artigos recentes, produzidos em diferentes continentes. As leituras serão organizadas em torno de quatro modos de relação com o fogo. O primeiro abordará a pirossocialidade, a participação dos animais não humanos nas queimadas indígenas e a constituição de paisagens multiespécies pelo fogo. O segundo examinará o trabalho dos bombeiros florestais, as burocracias de supressão, as alianças afetivas mobilizadas pelo combate e as desigualdades implicadas na transformação do fogo em objeto de governo. O terceiro discutirá antecipação, simulação, expertise, prevenção, preparação e evacuação comunitária diante de eventos extremos. O quarto tratará dos futuros indígenas do fogo, das práticas de reparação anticolonial, das formas de vida manejadas em paisagens incendiadas e da restauração da pirodiversidade.

A articulação entre essas duas frentes permitirá reler continuamente a antropologia no/do Piroceno à luz de problemas mais amplos da ciência, da técnica e das humanidades ambientais. Ao acompanhar a passagem dos regimes planetários de combustão às situações etnográficas concretas — e destas, novamente, às agências de PyroGaia —, o curso buscará construir uma abordagem capaz de reivindicar uma abordagem antropológica do Piroceno. Seu objetivo geral é oferecer instrumentos conceituais e teorias etnográficas para compreender as cosmotécnicas do fogo e suas consequências cosmopolíticas, contribuindo para imaginar formas mais justas e habitáveis de coexistência em um planeta em combustão.

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