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Mente e Literatura: dianoia, memória, delírio e imaginação
1. Apresentação
O curso, por meio de exemplos colhidos na ficção (prosa e teatro) e respaldados filosoficamente, busca entender os modos de revelação da mente de personagens, seja por estratégias narrativas em terceira e primeira pessoa, seja por alegorização teatral, seja ainda por investigações ao mesmo tempo linguísticas e fenomenológicas. Se em sua Arte da ficção, Henry James (1884) sinalizava as vantagens da escolha de um ponto de vista para o romance, por esta manobra confirmava o gênero como seara mental. O ideal teórico de James seria a subordinação do enredo à psicologia. Mas James, o teórico, está na origem de um percurso que talvez tenha alcançado seu pleno desenvolvimento com a comparatista Dorrit Cohn e sua abrangente pesquisa Transparent minds: narrative modes for presenting consciousness in fiction (1978). Trata-se de um estudo tipológico, que, no entanto, não descura da dimensão histórica das técnicas praticadas. A primeira parte da obra investiga as narrativas em terceira pessoa em modalidades como narração da psique, monólogo citado e monólogo narrado. É, no entanto, o estudo das narrativas em primeira pessoa, da segunda parte, que fornecerá exemplos para o curso, como a análise de obras instigantes como A construção, de Kafka, e Molloy, de Samuel Beckett, em que a apresentação de técnicas retrospectivas e modalidades monológicas aponta para as aporias ou paradoxos da própria linguagem. Se a prosa será interesse deste percurso, o teatro terá também grande peso, a começar por Aristóteles e o modo como entendeu o conceito de dianoia na Poética. A tragédia grega é o momento de explicitação da mente na literatura ocidental. Os dilemas sofridos e enfrentados pelos personagens antigos, alcançam o século XVII, e, na França, sua prática espelha mudanças políticas e sociais decisivas como se pode constatar ao se confrontar Corneille e Racine. Mas o teatro moderno é um laboratório tão radical quanto o romance, e a cena aos poucos não só se contamina com os estados mentais de personagens, mas pode se transformar (como em Strindberg, como em Nelson Rodrigues, como em Beckett) na própria mente, ou conteúdo mental destes. É preciso lembrar ainda que o aporte filosófico, em uma investigação literária que destaca a mente (como dianoia, noos, thymos, psique, consciência, inconsciente, alma, espírito, linguagem) é imprescindível. Por este motivo serão mobilizados aqui, com maior ou menor peso, pensadores como Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Geulincx, Schopenhauer, Freud, Mauthner, Husserl e Sartre. Mais do que fornecer um panorama da questão da mente na literatura, objetivo quase impossível porque desmedido, o empenho aqui é sensibilizar para alguns casos paradigmáticos ou radicais.
- Docente: Cláudia Maria de Vasconcellos