Objetivo da disciplina será construir ferramentas teórico-práticas para elucidar as relações entre: do grupo operativo à análise institucional: produção de subjetividade e luta contra a serialização. Serão estabelecidas relações entre a epistemologia convergente proposta por Enrique Pichon-Rivière e a Esquizoanálise. 

Aula 1, 2 e 3 (dias 24/02, 03/03, 10/03)

Apresentação da disciplina, modos de funcionamento das aulas, as caosmospercepções, o estágio, as avaliações. Proposta de síntese da disciplina “Processos grupais”, aprofundar e avançar em outras dimensões das práxis.

OBJETIVO: manter os encontros organizados contemplando as relações: sujeito–grupo–instituição em situação histórico-social. Objetivo da disciplina será construir ferramentas teórico-práticas para elucidar as relações entre: do grupo operativo à análise institucional: produção de subjetividade e luta contra a serialização.

Não se trata unicamente da intervenção em grupos como técnica, mas de compreender que toda prática psicológica é atravessada por relações de poder e produção de subjetividade. Toda práxis pode vir a agenciar “caixas de ferramentas” capazes de abrir condições de possibilidade para criar processos de transformação (subjetivação).

a) Teoria geral – concepção de sujeito, vínculo e grupo, articulando dimensões psíquicas e sociais;
b) Teoria do desenvolvimento – constituição do sujeito e dos vínculos ao longo do processo grupal;
c) Teoria do processo dinâmico saúde-doença – compreensão das manifestações sintomáticas como produções vinculares e institucionais;
d) Teoria do processo grupal – análise da tarefa, das ansiedades básicas, dos papéis, das alianças inconscientes e das transformações produzidas no campo grupal;
e) Os níveis psicossocial e sociodinâmico-institucional. TEU, papéis, adaptação ativa–adaptação passiva. (Professora Ianni)

Bibliografia

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Introdução. In: O processo grupal. Tradução de Marco Aurélio Fernandes Velloso. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Uma nova problemática para a psiquiatria. In: O processo grupal. Tradução de Marco Aurélio Fernandes Velloso. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 7–18.


Aula 4 — (17/03)

Compreensão da escolha pichoniana do materialismo histórico e dialético.
Leis da dialética e sua relação com o método da Psicologia Social da Práxis.
Concepção de “sujeito”: seres e humanidades em situação.

Objetos da Psicologia Social da Práxis: ser histórico-social em situação socio-histórica em transformação recíproca — desde a fantasia inconsciente até a inserção do ser histórico em uma sociedade de classes (capitalismo).

Infraestrutura e superestrutura.
Definição básica dos aparelhos ideológicos e repressivos do Estado.

A aula busca explicitar que o sujeito, para Pichon-Rivière, não é substância nem interioridade isolada, mas processo vincular em condições históricas determinadas. A dialética não é apenas referência filosófica, mas método operativo de leitura das contradições no campo grupal e institucional.

Bibliografia

FREUD como ponto de partida da Psicologia Social.
PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. Martins Fontes, 2005, p. 40.

“O implacável interjogo do homem e do mundo.”
PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. Martins Fontes, 2005, p. 190.


Aula 5 — (24/03)

Os três aspectos do real e as três áreas de expressão da vida das humanidades em situação socio-histórica. Contexto e intersecionalidade (breves relações com Frantz Fanon)

 

A verticalidade e a horizontalidade em relação dialética.

O psicossocial, o sociodinâmico e o institucional como territórios vinculados.

A aula aprofunda a estruturação dos níveis de análise pichonianos, articulando-os à compreensão do real como múltiplo e atravessado por determinações históricas, inconscientes e institucionais. A verticalidade refere-se às determinações histórico-estruturais; a horizontalidade, ao campo vincular imediato. A tensão entre ambas constitui o campo operativo.

Bibliografia

PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal.
Capítulo: Estrutura de uma escola destinada a psicólogos sociais.
Martins Fontes, 2005, p. 169.

KAZI, Gregorio Esteban.
Psicologia Social da Práxis de Enrique Pichon-Rivière: migrações para a interseccionalidade e o esquizogrupo.
Tese (Doutorado) — Universidade de São Paulo, 2023.
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-08092023-102507/pt-br.php


Aula 6 — (31/03)

Bases epistemológicas da Psicologia Social da Práxis.

O grupo operativo como território (campo) de dialetização de contradições cindidas.

Os vetores do cone invertido como organizadores do processo grupal.

As noções de devir para a Psicologia Social da Práxis e a compreensão do devir para a Esquizoanálise.

A aula trabalha o grupo como dispositivo epistemológico e não apenas técnico. O cone invertido como instrumento de leitura do movimento grupal: pertença, cooperação, comunicação, aprendizagem e pertinência articulados à tarefa.

Bibliografia

PICHON-RIVIÈRE, E. Contribuições à didática da Psicologia Social.
In: O processo grupal. Martins Fontes, 2005, p. 237.

PICHON-RIVIÈRE, E. Habla sobre Lacan.
https://area3.org.es/revista/pichon-riviere-habla-sobre-j-lacan-16/


Aula 7 — (07/04)

Os vínculos dialéticos e as relações de imanência: do sujeito faltoso — reprodutor de um inconsciente teatral — ao sujeito das transformações.

Das mudanças relativas da dialética às atualizações como produção de um “novo radical”.

Contribuições de novos paradigmas: David Lapoujade e os movimentos aberrantes.

Introdução à Esquizoanálise de Baremblitt.

A aula propõe deslocar a leitura do inconsciente como teatro para o inconsciente como produção. A dialética é tensionada pela imanência, abrindo para processos de atualização não redutíveis à negatividade.

Bibliografia

KAZI, G. E. Micropolíticas revolucionárias e insurgências macropolíticas: devir imanência/ser dialética.
In: HUR, D.; LACERDA JÚNIOR, F. (Org.). Psicologia política crítica: insurgências na América Latina. Campinas: Alínea, 2016, p. 121–136.

BAREMBLITT, Gregorio. Introdução à esquizoanálise. Belo Horizonte: Instituto Félix Guattari, 1998.

 

Aula 8 — (14/04)

Serialização subjetiva e produção de subjetividade nas instituições modernas.

A disciplina como tecnologia política

.
Normalização, vigilância- punição e exame- regulamentos como operadores de constituição de sujeitos obedientes. Os corpos e sua homogeneização.

A instituição como dispositivo produtor de subjetividade e não apenas como cenário de práticas psicológicas. Manicômio, Fábrica, Prisão, Igreja, Escola (relações iniciais com Erving Goffman, “instituições Totais” e Achille Mbembè: a necropolítica)

A aula busca articular a Psicologia Social da Práxis com a analítica do poder, compreendendo que os grupos e as instituições participam de processos de serialização e de captura da singularidade. O foco será analisar como o poder opera de forma capilar, produzindo modos de subjetivação que atravessam o campo grupal.

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.


Aula 9 — (21/04)

Psicoterapia Institucional, outra perspectiva sobre as instituições.

François Tosquelles e a experiência de Saint-Alban.
A noção de “tratar a instituição”.
O coletivo como operador clínico.

A instituição como campo vivo atravessado por forças instituídas e instituintes. A clínica não se reduz ao indivíduo: desloca-se para o funcionamento institucional. O coletivo como dispositivo terapêutico e político.

Relação entre Psicoterapia Institucional e Psicologia Social da Práxis: aproximações e diferenças na concepção de coletivo, tarefa e transformação.

Bibliografia

TOSQUELLES, François. Uma política da loucura: e outros escritos. Organização e tradução de Anderson Santos. São Paulo: Ubu Editora; sobinfluencia edições, 2024


Aula 10 — (28/04)

Instituído e instituinte.

Diferença entre instituição, organização, estabelecimento e dispositivo.

Grupo-objeto e grupo-sujeito.
Transversalidade.

Micropolítica e processos molares e moleculares.
Segmentariedade dura e flexível.

A aula aprofunda a análise institucional como leitura das forças que compõem o campo social. O instituído como cristalização histórica; o instituinte como potência de transformação. A micropolítica como plano onde se produzem deslocamentos moleculares que podem ou não reverberar no plano molar.

Bibliografia

Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática. BAREMBLITT, Gregorio F. 6. ed. Belo Horizonte: O Lutador, 2012

DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? Tradução de Miguel Serras Pereira. In: Michel Foucault, filósofo. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. Disponível: https://michel-foucault.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/art14.pdf

 


Aula 11 — (05/05)

Autoanálise e autogestão no Movimento Institucionalista.

“Expert aliado” e experts da hegemonia.
Relação com a horizontalidade em Pichon-Rivière.

Pontos de proximidade entre o “expert aliado” e a coordenação pichoniana. (Breves relações com Franco Basaglia- A instituição negada)

Objetivo manifesto (tarefas manifestas).
Objetivo latente das instituições (tarefas latentes, resistências e forças de transformação).

A aula analisa o lugar do/a psicólogo/a nas instituições. Não se trata de neutralidade técnica, mas de posição ético-política. A coordenação pichoniana como função operativa que sustenta a tarefa sem capturar o grupo; o expert aliado como aquele que trabalha para que o coletivo produza sua própria análise.

Bibliografia

Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática. BAREMBLITT, Gregorio F. 6. ed. Belo Horizonte: O Lutador, 2012

O processo grupal. Tradução de Marco Aurélio Fernandes Velloso. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 


Aula 12 — (19/05)

Rizoma.

Máquinas desejantes e produção.

Superfícies na Esquizoanálise.
Processos de subjetivação.

A crítica ao modelo arborescente e a proposta rizomática.
A multiplicidade como princípio organizador.

A aula introduz noções da Esquizoanálise como ferramentas conceituais para análise institucional. O rizoma como operador para pensar grupos e instituições não como estruturas fechadas, mas como multiplicidades conectivas.

Bibliografia

Capítulo “Rizoma” de: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. Tradução de Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011.

Capítulo “Micropolítica e segmentariedade”. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 3. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

 


Aula 13 — (02/06)

Liso e estriado.

Territorialização, desterritorialização e reterritorialização.

Produção desejante e instituições contemporâneas.

Articulação dos conceitos com o campo de estágio.

A aula busca oferecer instrumentos conceituais para leitura das instituições onde os/as estudantes realizam estágio, analisando os modos de estriamento institucional e as possíveis linhas de fuga.

Bibliografia

Capítulo “Liso e estriado” em: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2012.

ROLNIK, Suely. Cartografias do desejo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1989.


Aula 14 — (16/06)

Seminário de apresentação grupal: articulação dos conceitos com as práticas de estágio. (Grupo 1)

Análise coletiva das forças instituintes e instituídas presentes no próprio dispositivo da disciplina.


Aula 15 — (30/06)

Seminário de apresentação grupal: articulação dos conceitos com as práticas de estágio. (Grupo 2)

Análise coletiva das forças instituintes e instituídas presentes no próprio dispositivo da disciplina.

 


04/07

Os/as professores/as estarão disponíveis na unidade para quaisquer dúvidas, orientações finais ou esclarecimentos relativos à disciplina e ao estágio.


Critérios de Avaliação

  • Frequência mínima obrigatória: 75%.
  • Duas resenhas da bibliografia indicada (peso 3).
  • Participação no estágio e na “caosmopercepção” (outro modo de nomear as supervisões, com mudanças no processo), realizadas no horário da disciplina (15:55 às 17:00). (peso 3)
  • Apresentação final grupal articulando os conceitos trabalhados com a experiência do estágio. (peso 4)